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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Malenas



A todas as Malenas do mundo, até para aquelas que nasceram com outros nomes...


A Malena que conheci não canta tango, tão pouco tem qualquer pena do bandoneón. Já a outra Malena, a da canção que me fez chorar em Buenos Aires, emocionou seu autor em São Paulo nos anos 40. Esta é Malena de Toledo, nascida no Chile, crescida no Brasil, viveu na Argentina, Venezuela e morreu no Uruguai. Minha Malena, que também conheci em São Paulo, não se preocupa em ser assim, mulher da América do Sul inteira, embora já tenha fugido até para mais longe, chegando aos confins da América do Norte.


Está cansada de tango, vinho e tragédia. Trocaria todos os bandoneóns de sua vida por uma orquestra de berimbaus.


Malena prefere fugir dos homens argentinos, quer beber caipirinha, dançar samba e extravasar ruidosas gargalhadas nos restaurantes. Malena é judia e tem uma voz clara, tão diferente dos tons escuros da outra.

Malena procura um homem que não seja seu conterrâneo, talvez tenha medo que se volte a repetir tantas comédias sem nexo que a vida lhe armou. Ontem tentou um noivo canadense, apaixonou pela Bahia e agora pensa em morar em São Paulo.


Já Malena de Toledo cantou o tango que carregava seu nome sem saber que era para ela, quando descobriu ficou de tal maneira impressionada que nunca mais o cantou. Depois de sua morte, tantas outras Malenas reivindicavam ser a musa da canção que até foi criado o dia das Malenas.


A Malena que conheci não se arrisca a cantar nada, mas em cada gargalhada e trejeito expõe seu coração lívido para quem o quiser colher.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Furacão


Uma vez lá em Sacramento, quando eu tinha em torno de seis anos, anunciaram um furacão!
Ventava muito e todos lá em casa corriam para tirar os objetos do quintal: roupas, bicicletas, brinquedos, e até as galinhas foram parar no porão. Eu já imaginava os furacões de filmes, já vendo a casa inteira rodopiando perdida pelo céu. E seu eu me desprendesse e voasse para longe da casa?
Foi então que minha avó levou meus irmãos e eu para seu quarto e nos apresentou a única solução possível: muita reza! E perante umas três Nossas Senhoras e luz de velas acompanhamos a ladainha das infinitas ave-marias do terço. Na escuridão escutávamos a tempestade imaginando se àquela hora já estaríamos voando... Mas o medo era mais forte que o encanto e tentava me concentrar naquela fé que tão-pouco compreendia.
Por fim o mundo retornou à calma depois de uma tempestade forte, mas tão ordinária quanto todas as outras que já havíamos vivenciado sem alardes. Vovó abriu a janela e mostrou um começo de noite calmo lá fora.
_ Estão vendo como é bom rezar? Impedimos o furacão.
Fiquei maravilhado com nosso feito e o poder da oração. Naquela noite éramos os heróis da cidade!
A partir de então passei a rezar muito, pedindo a Deus que me desse superpoderes.

(e lá se vai casa de Dorothy pelos ares... acho que ela não sabia rezar)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

As vizinhas suicidas


Nunca pensei em me matar antes de morar neste prédio. Será? Pelo menos nunca imaginei viver num local onde a morte se faz visita constante. Mais uma moça se matou. Quase uma semana que estava morta e ninguém descobria, nem mesmo seu cheiro de decomposição atravessava as paredes. Por que essa me chocou mais que a outra? Esta eu conheci e até invejei. Sim. Invejei seu cabelo ondulado e brilhante, sua boca de carne fresca, os rapazes com quem subia de elevador, até seu nome de santa. Mas vivia sozinha e ninguém se lembrou dela na última hora. Assim como eu. Já a primeira que se matou foi encontrada mais rápido porque tinha diarista. Essa eu não invejava porque era parecida comigo. Quando desceram com o corpo passaram por mim e vi as gotas de sangue. Matou-se na banheira, com os pulsos cortados. Alguns dias antes tinha me imaginado assim também, tinha até vislumbrado a cara de minha mãe quando me descobrisse. Ela ficará louca de ter que velar o corpo maldito de um suicida, e ainda receber aqueles pêsames irônicos. Nunca quis me matar e agora sei que posso ser a próxima... Tenho medo de também ser uma morte esquecida e estou amiga de alguns vizinhos, sorrio e converso com todos que encontro no elevador, levo bolo aos porteiros, mostro para todos que existo e tenho encantos. Preciso ser encontrada com amor! Talvez por meu príncipe encantado, talvez marque uma festança para a hora H e aí sim, sendo convidada e agendada dessa forma, quero ver se essa morte solitária dá mesmo as caras e tem coragem de me arrebatar no melhor da festa.

(imagem de Chagall)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Pitanguinha


Entupia-se do gosto de goiaba, romã, cajamanga, fazendo de seu corpo parte do pomar, embora fosse mais íntima das frutinhas pequenas, que a ensinaram como explodir na boca do amante e deixar um azedinho no fundo.
Era somente uma menina naquela época mas sabia escolher seus homens, preferindo os famintos, aqueles que não pudessem se conter em meio a profusão de cheiros numa tarde quente. Conduzia-os com calma, fazendo-se de menininha distraída que trepava sem calcinha nos galhos mais altos da jabuticabeira. Até os mais santos davam vez ao tarado observando aquela bucetinha madura que voava de galho em galho. Depois se esparramava pela terra, lambuzando-se no caldo das mangas e ensinando como devorá-las até o bagaço. Nesse ponto eles já pouco pensavam, confundindo o que seria fome, ou calor e se deixavam também ser maliciosamente ingênuos... perdendo assim suas roupas ao caminho da pitangueira, onde colhiam o primeiro mamilo que se revelava numa confusão de cores similares. Já tão sedentos davam vez ao ritual, e era isso que a menina queria, para ela só existia amor na brutalidade da urgência: era enfim chupada, espremida, pisada e abocanhada até o último sumo para ser libertada.
Seus amantes, pobres meninos e homens rústicos, fugiam em carreira louca, atormentados por culpas e pudores enquanto ela permanecia...
Deixava seu sangue decompor na terra, germinando a próxima estação.


(Imagem de Marina Hanacek)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

2 dias para Deus e 5 para o Diabo (final)


3


Quinta-feira é outro dia das Irmãs de Espírito. Imediatamente procuro Mara:
_ ... você não imagina as coisas que a Cidinha falou de você, Jesus a condene! Uma indecência fofocar assim com tanta maldade... Começamos juntas a bolar um caso para que o ministério da Igreja a tire de área. Menos uma pra me azucrinar. No caminho de volta não resisto a comprar uma torta confeitada divina que devoro sozinha antes de entrar em casa.

Sexta estou lenta, tomada de uma preguiça safada. Vou encontrar um amigo que transa comigo por falta do que fazer. Pareço cadela no cio e sinto vontade de dar pra desconhecidos, me masturbo nervosa quando fico presa no trânsito. Em casa seduzo meu marido mas não deixo que faça muita coisa. É um êxtase ver o coitado se humilhando todo por nada.

Sábado desapareço logo pela manhã, não dou satisfação a ninguém e vou direto conversar com o bruxo. Ele é arrogante e impaciente porque sempre peço a mesma coisa... Então oramos juntos e dessa vez coloco meu sangue misturado no feitiço, já chorando a morte de toda a minha casa e imaginando o silêncio novo das tardes. Só tenho um pouco de angústia por lembrar que no dia seguinte vou me arrepender de tudo e acordar ainda mais redimida, ainda mais maternal... suplicar em segredo o perdão de cada palavra daninha e empanturrar todos com meu amor sem fim.


(imagem de Willian Blake)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

2 dias para Deus e 5 para o Diabo (II)


2
Terça-feira
acordo tão cansada. Estou irremediavelmente feia no espelho e sinto vontade de chorar. Passo o dia fechada, com a sensação de que aqueles desgraçados levaram tudo de mim. Estou ressequida, fria, quase oca por dentro. Reclamo de dor de cabeça e me fecho no quarto até a hora de dormir. Acendo a primeira vela negra da semana.


Quarta-feira de manhã minha filha vem mais uma vez falar daquele seu namorado e mando ela pro inferno. Preparo um almoço estranho misturando temperos amargos e jogo na cara de João Carlos que ele é o verdadeiro problema de seu trabalho. De tarde tenho prazer apenas quando Cidinha vem fofocar as últimas baixarias da família de Mara. Deixo que o ódio tome conta de mim e me sinto bem melhor quando chega a noite. Rezo para que Cidinha, Mara e todas aquelas vacas apanhem uma bela maldição.

(imagem de Goya... não percam neste sábado a última parte deste conto)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

2 dias para Deus e 5 para o Diabo


1
Domingo: Dia do culto! Acordo a família cantando e com o coração entregue a Jesus. Mal vejo a hora de encontrar a Cidinha, a Mara e todas minhas queridas Irmãs de Espírito. A igreja se ilumina com a voz doce do Pastor Alberto. Me purifica como uma menina que jamais soube o que é pecado. Depois vem o almoço que faço questão que seja farto, mesmo que leve horas em seu preparo. É maravilhoso ceder meu tempo para ver todos assim: gordos, felizes e sorridentes.

Segunda-feira: Dia das Irmãs de Espírito entrarem em ação! É assim que se chama nosso grupo. Mais uma vez vamos lá eu, a Cidinha, a Mara, a Josefa... um dia a gente vai pra creche e brinca com as crianças, canta, reza com elas. Chego em casa revigorada apesar do cansaço. Outro dia vamos passar filmes no asilo. Converso com todos, ouço suas histórias sem perder qualquer detalhe. Nada compra o prazer de receber um sorriso daquelas pessoas tão esquecidas pela vida. Quando João Carlos, meu marido, vem com aquelas velhas queixas do trabalho abro meu sorriso contaminado pelo pureza da caridade e vejo que ainda tenho tanta luz em meu sagrado coração. Sou uma fonte inesgotável de amor!

(esse conto continua nesta semana em mais dois posts, a pintura que o ilustra é de Rafael)

terça-feira, 25 de março de 2008

O dia do juízo


(final das divagações sobre a obra de Segall)

Magno não acreditava na maldição, para ele seus olhos seriam eternos e a cada noite aumentava a tensão na eterna vigília de Eusébio e Julieta. Quando o dia do sacrifício enfim chegou Conceição já sentia no ar o antigo cheiro de putrefação que marcara sua juventude. Para Julieta tinha algo de perfumado, como sempre imaginava que seria o dia do juízo, para Eusébio era apenas um dia muito úmido, mas com gosto de fatalidade.
Para o resto da população foi um dia de maravilhas!
Por um instante houve paz para os atormentados, e luz nos olhos cegos, até mesmo a velha Conceição descreveu cores no belíssimo manto da santa, que sorria para ela pouco antes de falecer, embebida por um perfume de rosas que irradiou por toda a casa. Então milagres despontaram em primavera pelas ruas da antiga cidade que há muito já não conhecia mais tamanha abundância de vida. Mesmo a cortejo fúnebre de Conceição deixava um rastro de alegria e encantamento. Por um instante ninguém na cidade sentia qualquer dor ou tormento.
E Magno também foi encontrado morto após o velório, mas com os olhos tão abertos! Ninguém conseguiu fechá-los e ainda no fim do dia foram enterrados assim: estatelados!
E todos respiraram ainda por muito tempo o aroma dos milagres. Ninguém mais, nem mesmo a atormentada família de Conceição, pôde jamais se entregar a qualquer maldição.

E assim terminamos esta saga! O próximo post será finalmente o regulamento da promoção FAST FÁBULA DELIVERY. Desta vez atenderemos a uma demanda bem maior de pedidos e teremos regras diferentes. Não perca essa oportunidade de desafiar um pretenso escritor a dar vida a qualquer história que por ventura tenham vontade de ler, principalmente para aquelas que aparentemente ninguém (em são ou insana consciência) escreveria!

quinta-feira, 20 de março de 2008

Dias de peste


(continuação das divagações sobre a obra de Segall)

Toda a maldição começou com uma praga impiedosa.
Conceição, a matriarca da família, era ainda muito nova quando a peste caiu sobre a cidade.
_ É a maldição dos santos por pecados passados...
Gritava o velho profeta enquanto as famílias eram carregadas aos montes e empilhadas nos campos da morte. Dizia-se que Dom Otávio, o fundador da cidade, tomara aquelas terras de antigos monges e agora toda a cidade pagava em chagas e putrefação. Conceição era a única neta de Dom Otávio e acudiu a todos os santos, implorando que algum deles a levasse como pagamento de tais pecados. Somente Santa Luzia intercedeu por ela, aparecendo em revelação:
_ Dê-me de dez em dez anos os olhos seus e de teus filhos. Assim a cidade poderá ser poupada...
Foi naquela tarde distante que o primeiro olho foi sacrificado.

(mais uma vez um quadro de Lasar Segall como ilustração, espero terminar essa história no próximo post, no post anterior temos a cena inicial que precisa ser finalizada. Ainda continua de pé o convite para que me ajudem. Alguém se habilita?)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Olho por olho



(divagações sobre um tema de Segall)
As cortinas abrem-se para uma tragédia familiar. Este no centro torna-se Magno, aquele que nunca dorme e nega pagar o tributo fatal de sua família: Todos têm sua hora de entregar os olhos! Quando a mãe já dormia depois de um dia inteiro de lamentos tão-tristes os dois irmãos se entreolham, cada qual com o olho que lhes resta.
_ Logo não haverá mais qualquer lágrima aqui dentro. _ profetizou Eusébio com rancor na voz...
_ É a vez de morrer um olho que nunca chorou... _ sussurra Julieta contida.
Primeiro foi a mãe que deu os dois, antes ainda houve o pai já morto, depois foi um olho de Julieta e um de Eusébio. A hora novamente se aproxima e os dois irmãos velam Magno, esperando qualquer pestanejar para que possam arrancar seu quinhão da dívida.

Assalto o quadro de Lasar Sagall para tentar alguma possibilidade ainda mais intensa de comungar com essa obra que tive o prazer de confrontar pessoalmente. E as cores reais são tão vivas! Só mesmo com os próprios olhos para saber como é fraca essa gravura perto da imagem original! A exposição está na Fiesp e foi prorrogada para o próximo domingo... aos paulistanos, não deixam passar essa oportunidade única de conhecer a fundo esse artista tão intenso e ainda tão pouco valorizado pelo grande público.
Quem me ajuda a terminar essa cena?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Dona Carmem (Final)


_ Muito obrigada, estou quase na final do concurso de palavras cruzadas!
Era isso então minha querida inimiga? Observei ainda mais um pouco a maneira que ela enchia a mão de jujubas e amendoins, como uma menina pateta e gulosa. A quem estavam querendo enganar? Aquela não poderia ser digna nem de minha repulsa. Onde estava a mulher capaz de torturar consciências silenciosamente?
_ Você não é Dona Carmem.
_ Como?
Dei um tapa nos potes de guloseimas.
_ Onde está Dona Carmem? Não quero tratar com essa cópia barata!
Pela primeira vez em minha vida comecei a berrar tudo o que sempre desejei. Falei tão exaltado e atirei contra aquela mulher tantos insultos que ela chorava, trêmula de medo. Os olhinhos de azeitona se desmanchavam e a secretária abriu a porta com cara de susto. Os diabinhos deleitavam-se, dançando com cantilenas agudas ao redor da cabeça da falsa Dona Carmem.
Saí da sala sem dizer mais nada e segui para o RH, onde pedi minha demissão.
Mas não descansarei enquanto não colocar minhas mãos na verdadeira Dona Carmem. Sigo pelo mundo procurando o rastro de minha doce inimiga como quem busca a presa ideal. Cotidiano, carreira, negócios, futuro... o que importa? Meu único sonho é fechar meus dedos em seu pescoço e poder me divertir um pouco vendo sua face tornar-se roxa e clarear-se, tornar-se roxa e clarear-se, tornar-se roxa e clarear...
Meus diabinhos seguem atentos, prontos a me alertar se ela prepara alguma armadilha sorrateira na penumbra.

(esse conto partiu de reflexões sobre sentimentos obscuros e acabou se transformando numa coisa muito diferente do que foi pensado inicialmente. Na imagem uma bruxa renascentista de autor ignorado)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Dona Carmem (parte II)


Três diabinhos pousaram sobre meu ombro quando entrava na sala de Dona Carmem. O primeiro era o da revolta, que não parava de citar a lista de injustiças e podridões daquela empresa, e como poderia usar essas informações para chantagens. O segundo era o do assassinato, este insistia que a única maneira realmente digna de superar um inimigo era sua morte, mesmo que não terminasse impune. O terceiro era o do escárnio, que gargalhava ao ter a visão de Dona Carmem dançando pelada sobre a mesa da diretoria.
Dentro da sala ela estava absorta na tela do computador, olhou para mim sorrindo. Acho que não lembrava de vê-la sorrir.
_ Aceita uma jujuba? Um amendoim?
Diante dela havia dois potes com essas guloseimas. O diabinho número três mergulhou com vontade nas jujubas e brincava como uma criança, o número dois pousou sobre a cabeça dela e fazia sinais para que eu atacasse. Só o primeiro permanecia quieto e analítico.
_ Você sabe quem é o autor de Casa de Bonecas?
Onde ela queria chegar?
_ Casa de Bonecas? Como assim?
_ Sim... uma peça, está escrito aqui, Casa de Bonecas, cinco letras... você entende de teatro, não é?
_ Ibsen.
_ Como?
_ O autor... I – B – S – E – N
Dona Carmem anotou o nome prontamente. E porque eu respondera corretamente? Levantou os olhinhos de azeitona e estava sorridente, com uma expressão infantil e boba.
Aquela não era Dona Carmem!

(termina no próximo post, imagem de Erhard Schoen)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Dona Carmem (parte I)

Quando fui chamado para uma conversa com Dona Carmem engoli um pouco da convulsão assassina que me tomou. Minhas mãos tremiam. Em sua maldita ante-sala observava a secretária em sua expressão plácida, mecânica, falsamente cordial. Ela estava calada, normalmente tagarelava inutilidades, mas aquele dia ela só podia estar silenciosa por um motivo: era minha demissão! Não tinha mais jeito, todos naquela empresinha de merda já sabiam de meu ódio a Dona Carmem. Durante os três anos que trabalhara ali sempre deixara uma ironia ou outra de relance, entre alguns comentários até maldosos, porém já tinha algum tempo que eu me divertia muito ridicularizando Dona Carmem para todos, até diante seus conhecidos puxa-sacos, e há muito que nem falava mais de salários injustos, horas extras mal pagas, falta de ética profissional. Nada disso, agora eu imitava o andar vitoriano dela, sua fala desprovida de paixão, os cacoetes de seu rosto no momento em que estava tensa, seu senso de humor ridículo, o colarzinho com um crucifixo romano. E cada dia crescia minha vontade de estrangulá-la lentamente, apertando seu pescoço enrugado bem devagar, sufocando-a em silêncio, observando seus olhinhos de azeitona tornarem-se novamente puros para deixar que recuperasse o fôlego. Aí repetiria a ação novamente e novamente e novamente e novamente...
_ Dona Carmem já vai te atender.
Acordei bruscamente das delícias de meu ódio e senti eletricidade percorrer minha espinha. Era o momento!




(continua... na imagem um dos dragões de Goltizius)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A mão decepada


encomendado por Maíra
Começou numa tarde eufórica, quando uma caixa misteriosa bem em frente ao congresso causou pânico geral entre a multidão curiosa e os técnicos da polícia federal, que suspeitavam de uma bomba. Silvério era um agente com coragem sobre-humana e apanhou a temida caixa, cujo interior continha apenas uma mão decepada.
Tão desapontados ficaram todos que nem deram importância a esse achado, com exceção de Silvério, que levou aquela mão consigo.
Viveram dias felizes Silvério e a mão, que se mostrou intensamente amiga, sempre disposta a fazer-lhe carícias, coçar onde não alcançava e até ser a mãozinha que faltava para os serviços domésticos.
Numa tarde de domingo, quando preguiçosamente cochilavam, apareceu uma visita. Era um homem estranho e soturno, que encarou Silvério com muito ódio.
_ Quero minha mão de volta!
O homem partiu sobre Silvério e rolaram pela sala em luta difícil. O agressor era forte e, apesar de uma mão a menos, tinha o alimento da raiva em seu sangue.
A mão subiu até a gaveta da cômoda apanhando a arma de Silvério. Os dois homens estancaram enquanto a mão remexia afoita, tentando decidir a quem deveria mirar. O invasor suplicou mostrando o braço mutilado mas foi inútil: bastou um tiro certeiro para que caísse sem vida.
Silvério encheu-se de felicidade e amor! A mão o escolhera ao seu próprio corpo.
Vieram mais dias de amor intenso até que nuvens negras povoaram a mente de Silvério em forma de pesadelos recorrentes, onde a mão o estrangulava enquanto dormia.
Tornou-se insone naquela angústia, sufocado pelo medo daquele membro que repousava plácido ao seu lado.
Talvez fosse melhor desfazer da mão...

(... termina no próximo post!
imagem de Dali)

sábado, 8 de setembro de 2007

O Sátiro (Final)


E então pude provar mais uma vez do néctar do amor, já quando achava que meu pau não levantaria mais. Fui fazer entrega para uma mulher que morava no alto dum prédio. Foi lindo! Não era bonita, mas estava ébria e no fundo de sua tristeza ela me lembrava uma das ninfas de outrora. Cheirou a farinha, me ofereceu, eu recusei. Ela então me deu bebida e me despiu. Assustou-se ao ver meu chifre, meu casco. Mas depois do susto se entregou com violência. Do alto de sua janela tão alta vi campos ao longe. Aí descobri que eles existiam aqui! A cidade tem um fim.

Hoje eu decidi, vou embora!

Vou descobrir o caminho daqueles campos, lá quem sabe reencontro meu bando, vou me despedir da velhinha, levar água, maçãs, um desses vinhos horríveis e vou. Lá talvez eles estejam, meus irmãos, meus amigos, minhas amadas ninfas, os frutos de meu deus. E vou poder voltar a correr com o vento...

Já correste com o vento? Deveria, assim poderia ter uma centelha do que é felicidade...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O Sátiro (parte II)

Não imaginava esse mundo estranho onde os seres não querem prazer! Quando cheguei corria excitado com tanto barulho, tanta gente, tanta cor, tanta luz como só imaginava que existisse no mundo dos deuses. Mesmo à noite meus olhos não conseguiam captar tanta coisa. As pessoas passavam por mim e me olhavam assustadas, alguns me chamavam de chifrudo, outros tarado. De repente cheguei num lugar onde havia muita gente, muita luz e música... e as pessoas gritavam alegres e cantavam alto. Senti felicidade e me aproximei, mas aí vi ódio em centenas de faces, como nunca vi em qualquer monstro de minha terra. “Demônio”, gritaram, e começaram uma corrida louca atrás de mim, só me dei conta de que não era brincadeira quando atiraram a primeira pedra. Corri muito, e por essa cidade estranha eles me perseguiam, me confundindo com um tal de capeta. Mas pelo menos eu era mais rápido que todos e num canto escuro da rua me recolhi.
Fiquei um tempo escondido e descobri que precisava de roupas e de dinheiro, e ninguém me sabia falar onde estavam os campos, os montes e a floresta. Comecei a trabalhar, morando num pequeno quarto de pensão, onde uma simpática velhinha me acolheu de bom grado. Trabalhava para um cara que falava rápido, eu tinha que ir a vários lugares, levando pacotes a outras pessoas. Até gostava, pelo menos andava e descobria esta cidade que não tem fim. Tinha a esperança de reencontrar meu bando qualquer hora, talvez também escondidos em roupas, talvez correndo de outra multidão enfurecida.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O Sátiro (parte I)

Quero ir embora, aqui não sou feliz! Meu mundo é outro e querem me matar, sei disso. Hoje mesmo o homem de chapéu azul do carro preto e branco esteve atrás de mim. Andei uma dezena de quarteirões e o carro sempre ressurgia, de uma esquina em que não prestava atenção. Descobri um sentimento novo aqui, essa coisa de sentir o coração pulsar com dor, isso que os homens chamam de medo. Antes não, meu coração só pulsava de alegria, noutro sentimento que chamo de êxtase. Ou ainda na emoção de espionar as ninfas se banhando. Aqui todos têm medo, acho que estou me tornando um deles agora.
No começo foi difícil, acostumei com bonés que pudessem esconder meus chifres e sapatos que não deixassem meus cascos a mostra. Meus pêlos ocultos pelo calor de calças largas, meu pau sempre comprimido e em dor. Por mais que gritasse em vão por meus deuses não compreendia que estrada me trouxe a esta cidade...

Só me restava a nostalgia... a lembrança de minha terra. Lá onde a loucura é uma coisa boa de se viver! A saudade de como corríamos em trotes desesperados pelos nossos campos e embriagados tocávamos flauta e cítara, fazendo mil serenatas no relento de noites quentes. Dançávamos com a corte de loucas, com quem seguíamos em festa por dias e que a nós se entregavam ébrias e felizes. Aí havia fontes, frutos maduros que nosso deus nos dava, o prazer da companhia do nosso bando, a beleza das ninfas!
Achas as mulheres daqui bonitas? Achas o fruto daqui saboroso? O vinho inebriante?

Me desculpe, amigo, mas tu nunca viveste.