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terça-feira, 6 de abril de 2010

O salmão e o grande amor


Depois de muitas histórias sobre Madame Verônica Anita resolveu comprovar a competência da cartomante. Sua questão era a mesma em todos os oráculos que consultava:
_ Quando virá meu grande amor?
_ Será o homem que te chamar para jantar e lhe oferecer salmão.
Algum tempo depois Anita foi trabalhar na recepção de um hotel internacional e devaneava horas tentando adivinhar qual daqueles gentis-homens e celebridades faria o convite sagrado. Chegou algumas vezes a se insinuar para alguns senhores solitários, sempre lembrando que o salmão do restaurante era impecável.
Aconteceu então numa noite insossa, onde perdia seus pensamentos em outras fantasias, de ser convidada para comer com Pablo, um garçom jovial com quem vez ou outra trocava algumas palavras. Era fim de noite e comeriam os restos de um jantar pomposo.
E finalmente veio o bendito salmão! Já um pouco frio e com um sabor terrível de predestinação.
Anita sentiu uma fisgada no corpo, estava já tão carente e sonolenta que se entregou ao moço, porém o renegou no dia seguinte. Pablo gostava dela e até insistiu por um tempo, mas Anita permaneceu impassível, flertando desesperadamente com qualquer bom-partido que tivesse oportunidade.
Anita foi muito infeliz.

(imagem de Nan Cuz)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Um fantasma

Mesmo depois de morta Joana não conseguiu aplacar o rancor que nutria de seus familiares.
Resolveu ser um eterno fantasma na vida do marido, dos filhos e netos... sempre lembrando-lhes o quanto foram displicentes com seus sentimentos e como sacrificara toda sua felicidade por aqueles que nem foram capazes de construir-lhe um túmulo digno!
No começo todos se assustavam, mas reconheceram suas falhas e decidiram homenagear Joana com um mausoléu belo e aconchegante. Porém mesmo assim Joana reclamava: o mármore branco sujava muito, as flores eram constantemente roubadas, o sol era forte demais no começo da tarde... Tantos eram os caprichos que todos acabaram dispondo grande parte de seu tempo cuidando da beleza e asseio daquele jazigo.
E enquanto eles estavam no cemitério Joana respirava aliviada...
Encostando-se preguiçosa no sofá finalmente apreciava a harmonia de sua casa.

(imagem de Maurice Denis)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sôdade


Será possível escrever sobre amor sem respirar os velhos clichês?
Dizem por aí que o amor perambula com graça tanto nas canções vadias quanto nos sonetos mais apurados, por enquanto sigo os conselhos de Rilke e não me arrisco assim tolo por um terreno tão espinhoso.
Já que no fundo qualquer coisa aqui é só inquietação...
Fuga desesperada ao impalpável por não ter agora os espasmos de seu corpo inconsciente abraçando minha insônia.



(imagem de Picasso)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Epifania


Quando o menino descobriu a concha ficou intrigado com aquele pequeno objeto que carregava o mar inteiro dentro de si. E tanto o trazia junto ao ouvido que em pouco tempo já percebia claramente o canto das baleias, o movimento dos cardumes e até fofocas de sereias. Maravilhado com aquele pequeno grande mundo que cabia entre as mãos resolveu um dia fazer uma experiência: encostou um diapasão vibrando na ponta mais sensível da concha e mal pôde tomar fôlego diante da torrente de água e peixes.
Seu mundo irrompeu num esplendido maremoto.

(imagem de Phil Clarke)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Cantilena torta


Se um ladrão de sonhos se aproxima nossa noite contrai um gosto inevitável de ausência, e num pestanejar o mundo já se torna dia.
Quando os sonhos nascem invertidos não há canto que tire das sereias um fedor insuportável de peixe apodrecendo.

A Outra


Magda podia conviver com qualquer um de seus problemas, mas não podia aceitar aquela outra que morava dentro do espelho.
Descobriu isso numa tarde em que apenas experimentava sapatos, quando inocentemente percebeu que aquelas pernas não eram dela.
_ Me desculpe... mas essas pernas não são minhas...
A lojista respondeu:
_ Quanto a isso nada podemos fazer madame, aqui não vendemos pernas.
A partir de então a outra passou a ocupar-lhe o reflexo. E mesmo que Magda a enxotasse com insultos e ameaças a outra pouco se importava, encarando Magda com ar de desprezo respondia ríspida:
_ Morra de inveja! Sou mais bonita!
Sem suportar tal despeito Magda retirou todos espelhos de sua casa e resolveu que a partir de então nunca mais veria sua imagem. No começo foi estranho, mas rapidamente se viu tão despida de vaidade que resumiu todo seu guarda-roupa a singelos vestidos azuis.
Um dia passou por acaso perante um espelho e viu que a outra não estava mais lá, ao invés dela havia uma mulher simples e insossa de olhos cândidos.
Apaixonou-se tão perdidamente que voltou a maquiar-se e vestir-se com esmero para seduzir a todo custo aquela nova mulher!


(imagem de Picasso)

Um sonhador


Era um sonhador não por ser escravo de desejos inalcançáveis, mas simplesmente porque não conseguia parar de sonhar quando acordado.
E quantas maravilhas e pesadelos vivia em plena vigília!
Porém sofria, desde criança. Era tido como louco até pelos pais, que várias vezes tentaram internações em hospitais psiquiátricos, tratamento com drogas fortes e eletrochoques...
Ainda assim o perseguiam as figuras oníricas, hora atormentado por um duende, pego em conversas com uma tia morta, ou ainda gritando de medo ante uma serpente dançando em seus pés.
Tanto sofria que com quinze anos resolveu se matar!
Preparou-se para um ato definitivo, subiu ao topo de seu prédio, no vigésimo andar, e até sentia o coração em disparate quando saltou:
Mas qual foi sua decepção ao abrir os olhos!?
Ao invés de se arrebentar seu corpo simplesmente planava, com a leveza de uma pipa sobre o infinito de um céu macio.