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sábado, 30 de outubro de 2010

A brisa e os instantes eternos


Moço da rua, que vem quando menos se espera e derrama palavras sobre mim. Homem de ferro e fogo que se deixa perder de vista vagarosamente.

Esqueçamos a vida vadia de desencontros e vamos cantar: abraçar esses instantes vivos, talvez fugidios, sem permitir que se tornem sal nestas velhas feridas que insistimos em cultivar...

Quero mesmo é ser levado por esses porões com cheiro de samba e deixar que a vida amanheça sem medo sobre nossa pele.

domingo, 10 de outubro de 2010

O dia mais triste do ano



O dia mais triste do ano é cinza e frio em plena primavera. Tudo que existe dentro se transforma num sentimento longínquo e grave como as raízes de uma velha árvore seca.
Há um mês aconteceu a grande perda, e diante da roda desenfreada dos últimos dias o pobre coração ingênuo tropeça e se esborracha num chão de pedras pontiagudas.
Para este dia não há palavras nem sons que saciem, quisera poder me entregar a um sono nulo e tão denso quanto o buraco que se atira sobre mim.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Sorte sem nome


Sorte do dia


Tirei a carta da morte.

Saí para comprar-lhe flores.


(micro-conto escrito numa oficina com Del Fuego ano passado)


Vivendo os dias escondido vou aos poucos matando meu diário. Diário de incertezas que nem mesmo queria esse título tão humilde.

Diário mal-disfarçado que almejava ser página de poesia.

Talvez seja a hora de olhar a cara desta morte sem nome e viver o desapego: chegou a hora de deixar que o novo tempo seja semeado.


(imagem do Arcano XIII do tarô de Marselha restaurado por Jodorowsky)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Restos do carnaval



E lá vamos nós nesse sonho louco de carnaval.



Percorrendo as ruas do Rio reencontro as velhas fantasias dançando impunemente sobre um chão de embriaguez e desejo.



Dar à carne um pouco de excesso é o bálsamo para que suas inquietações adormeçam no silêncio mórbido da quaresma.



E que os demônios não perturbem por um tempo!



(na foto as saudações da boneca do bloco das Carmelitas de Santa Tereza, tirada pelo Gabriel... lá pulamos o Gabriel, a Anna e eu. Na foto abaixo, eu de Hare Hippie, ou de New Weard America e Anna com o nariz cortado vestida de Chun Pin, isso foi logo depois de um banho de mangueira. Gabriel era um revolucionário de saia e não apareceu porque batia a foto).





sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre a fome doida de nosso tempo


Seja no teatro, cinema, espetáculo musical ou qualquer lugar onde tenha uma multidão cuidado com as pessoas. Cuidado com a massa! Já repararam que estamos numa época de uma selvageria brutal como há muito não se via? Cada pessoa sozinha é frágil como um gatinho, mas é só sentirem o cheiro de outros que começam a esquentar os poros e se entendem em consciência de manada. Sem nem saber porque já estão gargalhando diante de qualquer coisa que se apresente a elas, seja um palhaço no palco, um vestidinho curto ou uma cena sangrenta de assassinato. A maioria já não se contém e joga de lado qualquer educação que um dia receberam e deixam que o corpo se entregue a espasmos que por não compreenderem resulta em reações diversas: começam a falar coisas sem sentido, tiram fotos sem parar, coçam-se, têm crises histéricas, masturbam-se.

Quem está no palco mexendo com as emoções da massa que se cuide, diante de tantas vísceras expostas pode-se despertar um acesso de regozijo terrível e antes que o artista perceba estará sendo devorado por bocas sanguinárias de puro amor.


(imagem de Dali)


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Palco mudo

Ainda com a cabeça perdida nas sensações de Pina Bausch. Café Müller. Não acredito que tive a oportunidade de assistir essa pérola (acho que nenhuma de nossas palavras portuguesas traduz a expressão inglesa masterpiece), ainda no dia seguinte eu lembrava das cadeiras voando e da música de Purcell... não parecia verdade. E nem a Pina faltou, porque era possível vê-la no palco, ouvir seus gemidos. Muito cedo para a morte conseguir apagar sua presença. Depois pude participar de um happening com a Companhia Corpos Nômades e me senti um violinista muito especial por estar transitando e sendo embalados por aqueles corpos artísticos que também se tornaram parte de mim e do violino.

Depois disso tudo faço com que as palavras durmam e sonhem com a dança.

Hoje quero um palco mudo.


sábado, 19 de setembro de 2009

Disparate


Ando com cuidado pela rua para não cair nos buracos. Mas tem hora que a gente não segura o bicho e cai em disparate.

Parece que tô sumindo, mas não é isso. Tô é aprendendo a me equilibrar na bordinha dos abismos.

Sempre aceito uma mão amiga antes de me atirar pelo espaço.


(imagem de Goya)


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Tempo fechado


Uma neblina londrina invade o céu de São Paulo... Hoje parece com o dia que Luana, aquela personagem maldita do ano passado, resolveu cerrar para sempre as janelas do mundo. E olha que nem havia a tal gripe para criar paranóia.

Será que ela sobrevive ainda em sua tumba solitária?


(imagem de George Grosz)


sábado, 11 de julho de 2009

Valsa antiga


O fantasma de meu avô andou perambulando pela casa. O som de seu violino é triste e embriagado como uma rabeca, mas torna-se intenso quando acompanhado de acordeão e valsas que a memória de minha mãe não perdeu:
Terezinha ia todas as manhãs rezar e pisava venenosa nos corações dos velhos boêmios enamorados por sua tristeza.


(muito tempo sem postar por causa de transição de computador e viagem. Imagem de Chagall)

domingo, 21 de junho de 2009

Improviso


Agora me assalta uma vontade de escrever em velocidade de improviso musical.
Não tenho medo da queda, mas da verdade velada que foge aos dedos e se esconde num montinho de bosta .
Quem quer pegar?
Quem tem vontade de colocar a coisa suja na boca?
Sujo como sangue: rio lúcido de sua dor
.


(imagem de Geroge Grosz)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sobre novelas e novelos



É sempre confuso tentar distinguir romance de novela. Gosto de chamar minhas narrativas mais longas de novelas, talvez por afinidade com o princípio de concisão. Uma vez me disseram que a palavra novela vem de novelo, referindo-se a histórias que começam num emaranhado, como um novelo de lã mesmo, e pouco a pouco vão sendo desenroladas. Hoje, em meio aos meus preparativos de Sweet Dreams, relembrei essa imagem que me parece se encaixar bem em minha pretensão com essa novela, ou blognovela (esse termo já existe? Eu particularmente nunca vi). Mas Sweet Dreams não nasceu no blog, mas sim num Fanzine e agora fará parte do blog e do Zine de maneira integrada. Existirão capítulos publicados mensalmente no Zine do Goma, cada um destes terá desdobramentos variados aqui no blog, transformando em quantos capítulos forem necessários. Será uma novela-jogo? Pretendo! Terá regularidade fixa no blog? Quem sabe. Será interativa? Assim espero, mas aí não depende só de mim, mas de meus leitores silenciosos sentirem-se à vontade para meter os dedos na história. Nesta semana estou trabalhando nos aspectos estruturais desta novela, ou projeto, ou série... acabei sentindo a necessidade de escrever aqui sobre os bastidores, já que quando começar será o carro chefe aqui do Fast Fábula. O capítulo novíssimo deste ano já está pronto, só esperando a publicação no Zine para que seja publicado também aqui. Aí, meus caros, vocês terão a oportunidade de ler-participar de uma obra literária multimídia no meio de seu desenrolar criativo. Não sei ainda para onde estou indo com essa história, já que tudo isso nasceu com muito improviso... mas me sinto mais forte por ver um projeto literário transcender um pouco a virtualidade e se materializar, pelo menos em parte, em papel.
E quem sabe ela alcança ainda outras formas?


(imagem de Magritte)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Seis personagens esquecidos pelo autor


Hoje entrei num porão e surpreendi o esconderijo de personagens deste blog que foram deixados de lado. Estavam todos lá: o Coelho Mascarado, a Peituda Canibal, que na tristeza de sua fome comeu alguns personagens da Ciranda... (lembram daquele ciclo de personagens?) E sabem quem reina no porão? A Tia Pecúnia! Lá daquela primeira novela que se passava numa casa maluca, que foi uma tentativa de prolongar um conto bem do comecinho do blog...
Eles estavam indiferentes a mim e pareciam tranquilos em sua rotina de anonimato. Somente Nádia, a quem tanto prometi uma banda punk, puxou conversa e perguntou por Cecília:
_ Por que ela não tá conosco?
_ Cecília está passeando por outras terras, ela quem me abandona de vez em quando.
O duendezinho riu já embriagado e propôs uma dança de celebração ao esquecimento!


(imagem de Botero)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Caleidoscópio


Estava quieto no começo da noite quando fiz duas viagens dentro da garrafa. Cada vez montado em um dos olhos. O esquerdo estava inseguro, mas quando avançou fundo dentro conseguiu ver coisas que o direito nunca sonhou.

Depois eu quis sonhar, mas esses olhos indisciplinados passaram mais uma noite abertos.
Mas já sem ver nada.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Estranhezas


O texto é algo que me causa incômodo, desconforto. Chego a pensar se esta é realmente uma técnica pela qual valha a pena tanto sacrifício. Embora a música, com toda sua sedução, também tenha suas grandes estranhezas.
No fundo tudo é muito esquisito.
Inclusive a sensação de se surpreender sendo quem se é.
Não é irreal essa coisa de passar a vida toda detrás do mesmo par de olhos?

(acho que pra essa estranheza específica que a literatura serve de consolo, ou droga...)


(imagem de Joan Ponç)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Fellinianos


Senhoras peitudas que se deixam espionar por adolescentes, famílias barulhentas, loucos adoráveis que vagam por cidadezinhas, freiras anãs, jovens romanos sensuais, velhinhos sorridentes que se transformam em alucinações perturbadoras, semi-deuses enrolados em pedaços de meus sonhos, instrumentos musicais que tocam sozinhos, rinocerontes, pavões, palhaços e mais palhaços, com e sem maquiagem. E quando saio da sala de cinema continuo dentro. Faço parte de uma epidemia de tipos e personagens que invade ruas eternas, dos jardins luminosos aos becos sombrios de meu circo particular.
Circo-mundo de Fellini!


(e quem quiser dar um passeio pela cabeça de um grande artista é só assistir o vídeo acima)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Gorda amargura


Por uma rua plena de tédio, espanto-me com minha cara fechada estampada no semblante dos outros.
_ É o inferno astral... me diziam. Mês que vem o cosmos volta a ejacular pétalas no seu peito.
No supermercado vasculho o preço de pequenos frascos de prazer instantâneo.
Felicidade que engorda e tem data de validade.
Prefiro os caquis, mas como eles só amadurecem outro dia sou levado por um bombom rechonchudo que nem foi tão bom como prometia.
Até a tristeza anda gorda e não faz dieta.

(imagem de Botero
)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Palhacices


Beleza de palhaço é tropeçar na vida, descobrindo pelo sorriso dos outros uma alegria tão sua que brota da carinha de crianças, da fragilidade dos adultos, do prazer bobo de ser bobo acenando para estrelas.
E até delas arrancar um suspiro de última hora.


(momentinho de palhaço no carnaval deste ano num bloco em Sacramento. Quem nunca teve um momento assim precisa experimentar. Faz bem! Imagem de Ang Kiukok)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cara de doido!


Desde que descobri os escritores contemporâneos de São Paulo e passei a ler seus blogs e alimentar o desejo de fazer parte da turma. Tentei várias abordagens e sempre me sentia meio que um bobo querendo chamar as atenções. E nas minhas primeiras tentativas acho que o tiro saiu pela culatra mesmo. De uns tempos pra cá, através de aparições esporádicas e comentários nos blogs, começo a ser ligeiramente (beeeem ligeiramente), conhecido. Ontem fui ao Sesc Pinheiro para um outro debate e vi a Ivana Arruda tomando sopa sozinha numa mesa da lanchonete. Ofereci-me para sentar com ela e conversamos. Tem sido interessante essas aventurinhas, antes queria conseguir algum contato para publicação, hoje apenas tenho uma curiosidade sincera em conversar com essas pessoas e observar mais de perto o que é isso de ser um escritor, já que eu mesmo não sei diferenciar em mim o escritor do louco obcecado. Se não me torno conhecido como uma jovem promessa literária, quem sabe não fique na lembrança como um moço ansioso com cara de doido e olhos meio arregalados. Será ruim isso? Não sei... acho que não, é até divertido e parece que começo a virar um personagem.
De qualquer forma esses encontros estão dando bons frutos, estou conhecendo pessoas que serão parcerias artísticas interessantes e aprendendo um bocado com a experiência dos outros (maravilha a Ivana, o João Silvério Trevisan, o Marcelino), além de explorar outros lados da minha cabeça. Hoje levarei um fanzine com uma seleção de contos do Fast Fábula de presente pro pessoal. E olha que coisa: enquanto os escritores usam o blog para divulgar a literatura eu uso o papel para divulgar o blog... nesta semana publico aqui o conto resultante da oficina com o Marcelino e talvez uns outros derivados mais picantes.


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Fixação


E como se não bastasse o exagero de vidas e vozes gritando mundo afora ainda aparecem uns perturbados que perdem tanto esforço tempo e energia inventando historinhas.

(imagem de Bosch)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sôdade


Será possível escrever sobre amor sem respirar os velhos clichês?
Dizem por aí que o amor perambula com graça tanto nas canções vadias quanto nos sonetos mais apurados, por enquanto sigo os conselhos de Rilke e não me arrisco assim tolo por um terreno tão espinhoso.
Já que no fundo qualquer coisa aqui é só inquietação...
Fuga desesperada ao impalpável por não ter agora os espasmos de seu corpo inconsciente abraçando minha insônia.



(imagem de Picasso)