terça-feira, 16 de outubro de 2007

Uma sereia

Uma vez, após dias navegando em mares estranhos, encontrei uma sereia. Sem entender ainda o mistério de sua beleza e a fatalidade de sua voz (que ainda era apenas um murmuro) levei-a comigo para a cidade.
Passava horas com ela na banheira, abandonando-a apenas quando começava seu canto. Então eu me trancava do lado de fora e sofria na vontade de saciar sua fome crescente. A cada novo dia intensicava o chamado de suas notas agudas e melancólicas.
Acabei tomando uma decisão drástica: convidei meu sócio para um jantar especial. Claro que ele nem imaginava que seria a sobremesa de minha esposa, tão pouco que eu descobrira suas imoralidades.
Escondi a calda num vestido longo e tivemos um jantar corriqueiro, até o momento que inventei a necessidade de comprar cigarros e saí, oferecendo-o com o olhar para minha amada.
Sofri em ciúmes corrosivos durante as duas horas que estive fora, sem acreditar que ela deliciaria a carne de outro. Foram as horas mais tristes de minha vida...
Mas quando retornei tive surpresas: Ela estava calada e severa no mesmo local em que a deixara, enquanto meu sócio dormia num sofá.
Despachei-o rapidamente com alguma desculpa sem sentido. Os braços de minha amada se abriram com sua cantilena que definitivamente me arrebatou em lágrimas e êxtase.
Entreguei-me de corpo inteiro a seu apetite.




(imagem de Ashok Bhowmick)

Um comentário:

Maria Cláudia S. Lopes disse...

oi!!!
eu li seu comment....é foda amiga...adorei o da sereia...
aiai dói
beijo, te amu